sexta-feira, setembro 22, 2017

SAUDADE DE MIM...



"Estou com saudade de mim. Ando pouco recolhida, atendendo demais ao telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde está eu?
Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim - enfim, mas que medo - de mim mesma."

clarice Lispector


CARTA A UMA AMIGA

A meditação não cura doenças nem resolve problemas psíquicos ou físicos...como vulgarmente se pretende, nem é uma mentalização qualquer (como a meditação guiada) ou o recitar de mantras ou olhar para uma vela!
A Meditação é uma concentração, um FOCO (um fogo) em algo inatingível pela mente, incompreensível ao intelecto...e pertence a uma parte de nós que é nuclear e sejamos nós quem formos ou o grau da nossa inteligência ou educação, cultura, nível social-económico ou espiritual...em nada interfere senão com a Alma e o Ser que está para além de tudo isso.
É meditando que fortalecemos essa parte de nós que é interna e eterna e que não é influenciada pela mente nem pelo físico, mas que é o nosso centro energético (consciência pura, diria) e se esse centro estiver acordado e nós firmes e centradas nele, tudo o que nos afecta na superfície do nosso ser é atenuado pela consciência de algo superior mas não nos tira nem os problemas, nem os conflitos emocionais e psíquicos...apenas alivia e relativiza tudo isso que se passa fora e dentro de nós, se nos mantivermos focadas nele...é como alguém dizia: nós caímos na mesma, mas em chão parece acolchoado...
A ideia de que a meditação é uma terapia ou age sobre as questões físicas e psíquicas para mim é errada. É como o Respirar...respirar não nos cura...faz-nos viver ou permite-nos viver...RESPIRAR FUNDO, pode até equilibrar os chakras e outros centros nervosos talvez, activar a pineal, como dizem...sim, pode minimizar, mas não nos salva dos conflitos da psique nem dos problemas que criamos na prática em acções diárias, as nossas escolhas, os nossos sentimentos, o que não resolvemos, etc. se nós não fizermos nada por isso.
A vida em si é uma coisa e as circunstâncias da vida são outra...não confundamos! Temos de viver dentro desta realidade e compreender qual é o nosso papel na cena - Maya - ou no mundo em que vivemos...temos inclusive que trabalhar para “viver” - só isso é um drama ...somos escravos do dinheiro quer o tenhamos ou não...Também há sentimentos ou paixões que nos aprisionam e mantêm escravas deles. Há a fome e o desejo, há as necessidades do corpo...do sexo, mas há sobretudo o medo da doença, da morte e a inconsciência total do sentido profundo da vida e do milagre da nossa existência - a absoluta e incrível arquitetura deste corpo magnífico...que nós usamos sem saber quem somos e o que somos...ignoramos a nossa majestade como seres, a nossa grandeza, e que o ferimos e matamos e o usamos como se fosse nosso e o tivéssemos garantido...e contudo...não nos pertence. Essa é a nossa miséria...
Talvez essa ignorância de quem somos e do nosso valor intrínseco como SERES HUMANOS seja a fonte de todo o nosso desequilíbrio, nomeadamente nós mulheres, afastadas da nossa essência e força vital.
rosaleonorpedro
Republicando...

A CISÃO DA MULHER FOI UM EMPOBRECIMENTO


..."Sim chamar-lhe-ei poetisa. A homenagem que distingue o génio poético feminino com o prémio de lhe masculinizar o estro ultraja uma poesia que quer feminizar o mundo com magia e claridade lunar." - Natália Correia
......
vem, lira divina,
e me responde;
encontra, tu mesma, ...
tua própria voz
e
de [vossa casa] dourada,
vinde a mim, ó Musas
Safo

UMA ANTÍTESE INVENTADA - a fim de cindir a humanidade feminina...
(...)
"Entendo que essa antiga e venerável missão das prostitutas é uma ética congenitalmente feminina que só por um desvio de uma religião patrística foi reservada às sacerdotisas do amor a fim de cindir a humanidade feminina na projecção do abominável e do sublime masculino. Uma antítese inventada por esse ser eminentemente melodramático que é o homem, sem a mínima verosimilhança no cosmo da realidade da mulher que não distingue o espírito da carne. Eis porque as mulheres honestas sempre no fundo invejaram as prostitutas e vice-versa.” (...) In A MADONA de Natália Correia

"A razão poética é uma razão de amor, porque é “reintegração da rica substância do mundo”, ou seja, porque procura a reunião, a ligação. Se atendermos à definição dada – “reintegração da rica substância do mundo” – temos de reconhecer nesta racionalidade a vontade de restituir algo perdido para que a riqueza do mundo se recomponha. Ou seja, algo se cindiu e essa cisão foi um empobrecimento; restaurar a perdida riqueza do mundo supõe superar essa cisão e retornar a uma unidade originária.” FERNANDA HENRIQUES


A cisão aplicada à Mulher (a sua divisão em duas) foi o que fez o ser humano perder a ligação do cósmico e telúrico - a perda de contacto com a natureza da mulher instintiva e da mulher como  oráculo e o seu afastamento da mulher original, originou uma perca substancial da ligação ao  universo a partir do momento em que a mulher, mediadora das forças cósmico telúricas, deixou de o fazer condenada ao descrédito por Apolo e depois ,condida em duas pelo catolicismo e com essa cisão perdeu-se a possibilidade de “reintegração da rica substância do mundo” uma vez que é  a mulher em essência essa mesma substância ou Sophia e ainda a  Musa e a própria poesia - sem a musa não há poetas...etc.
 Este tema...é intuído de forma muito próxima do grande cisma que divide o mundo pela anulação divisão da mulher; estas escritora  intuem a cisão do mundo e da mulher mas não colocam na própria mulher essa substância, porque a mulher foi desviada dela como um ser-sentir e pensa-se em abstracto, tal como o homem pois o seu feminino profundo - a sabedoria está desligada na mulher intelectual que usa  o ego do homem (filosofo) e não o seu dom inato de vidente... 

A mulher intelectual,  regra geral, não se revê certamente nem revê em si mesma a divisão das duas mulheres, não vê dentro de si o conflito entre uma parte, a má, a parte reprimida da mulher, a sombra de Lilith, a puta  diria, e a parte boa, a Virgem, a esposa...creio bem que ela não vê essa cisão na própria mulher e como ela se repercute no exterior e no mundo...como a cisão da mulher se reflecte a cisão da "rica substância do mundo"  que corresponde ao feminino por excelência...e o que realmente falta no mundo...

 rlp

A SABEDORIA É FEMININA


ELA CONTEM EM SI A SABEDORIA

"A sabedoria é mesmo feminina. Correndo o risco de me repetir ou citar a mim mesma, direi que a «sophia» é feminina. A sabedoria é feminina e a filosofa é masculina. O homem enamora-se da sabedoria, mas nunca chega lá. E o percurso para... A mulher, ela própria, é ovularmente o segredo do Universo. Ela contém em si a sabedoria. As vezes não têm é consciência disso."

Entrevista (1983), Natália Correia


..."A mulher tem em si a sabedoria, um tipo de sabedoria inata, um catalisador único da realização. (...) A mulher potencialmente está directamente ligada ao conhecimento e a sabedoria, que são as duas forças complementares da grelha de base.* A mulher realizada domina a dualidade e ajuda o homem a transcendê-la. Enquanto o homem tem acesso ao conhecimento que está no início de tudo e além disso da vontade."

A mulher já é portadora do mundo transcendental - a Virgem Maria, Ísis, as Virgens negras. O homem, em contacto com a mulher, teria acesso ao germe da iluminação. E o casal alquímico exteriorizaria isso.


Etienne Guille in O HOMEM ENTRE A TERRA E O CÉU


'' As mulheres são efectivamente sábias por natureza, mas para os homens a sabedoria tem de ser ensinada pelos manuais.''

Do drama indiano "O pequeno cesto de barro" escrito pela mão do rei Śūdraka, sec II A.C.   

terça-feira, setembro 19, 2017

Arundhati Roy:

 «Na Índia, é mais seguro ser uma vaca do que ser uma mulher»

Arundhati Roy               
 
Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Orlando Almeida/Global Imagens

É uma mulher enorme, de corpo franzino, voz baixa, olhar doce e sorriso sereno. Há vinte anos escreveu O Deus das Pequenas Coisas, romance de estreia que lhe valeu o Booker Prize (vamos esquecer o Man incluído no nome do prémio) e fez dela uma escritora conhecida em todo o mundo, com milhões de livros vendidos e traduzidos em 42 línguas.
Elevada a rosto da nova Índia, recusou o rótulo que a tornaria cúmplice de uma ideia de sociedade e de país que deplora e tornou-se ativista pelos direitos humanos, contra os ensaios nucleares e a ocupação de Caxemira, contra o sistema de castas e a forma como as mulheres são tratadas. Por isso, sofreu ameaças e perseguições. Teve (tem) medo, mas nem este a deteve. Parece que é isso a coragem.
Os vinte anos que separam os dois livros deram-lhe o mundo que construiu no seu segundo romance, O Ministério da Felicidade Suprema, lançado este ano e que a colocou de novo entre os candidatos ao Booker Prize, a mais alta distinção da literatura em língua inglesa.
Diz que não sabe o que é um país, mas nunca conseguiu viver noutro senão aquele em que nasceu.

Entre O Deus das Pequenas Coisas e O Ministério da Felicidade Suprema percebe-se uma visão maior do mundo. Foi o que fez nos 20 anos de intervalo entre os dois livros: ganhar mundo?
Sim. Depois de escrever O Deus das Pequenas Coisas, viajei, escrevi ensaios de não-ficção, envolvi-me no que estava a passar-se na Índia. É um país que mudou de forma muito dramática nestas duas décadas.
O primeiro livro ganhou o Booker Prize, foi um sucesso internacional e a Arundhati partiu para a luta. Escolheu o caminho mais difícil.
Não me sentia confortável com o facto de ser uma escritora de sucesso, conhecida em todo o mundo, mas que vivia num lugar onde as pessoas não sabiam ler, não tinham o que comer. Qual deveria ser o meu papel? Era essa a questão que colocava a mim própria. Decidi dedicar a minha energia a pensar sobre esse lugar e, através disso, a pensar sobre o mundo.
 (...)
Esteve envolvida em diversas causas. O que a revolta mais?
Pouco depois de O Deus das Pequenas Coisas ter sido publicado, em 1997, e ter ganho o Booker Prize, foi eleito na Índia um governo de extrema-direita fundamentalista hindu. Foram feitos uma série de ensaios nucleares, celebrados não só pela classe política, mas também pelos media, por artistas e escritores, de uma forma que considerei muito feia. Senti que o discurso público tinha mudado. Nessa altura, eu era apresentada como a cara desta nova Índia e considerei isso muito perturbador porque não concordava com aquele tipo de posição política.
Quis demarcar-se?
Sim. Por isso, escrevi um ensaio, chamado O Fim da Imaginação, que desencadeou muita raiva contra mim, da parte das mesmas pessoas que antes me celebravam. Comecei a viajar e a escrever e a verdade e a perceber que o que me revolta é a ideia de uma sociedade que glorifica a injustiça. Não há nenhuma sociedade completamente justa, mas pelo menos tenta-se alcançar a justiça. Aqui (na Índia), a começar pelo sistema de castas, celebra-se a injustiça, faz-se desta uma coisa sagrada.

«O sistema de castas é o motor da Índia moderna»

Como se explica que até hoje esse sistema não tenha sido abolido?
Arundhati Roy
O sistema é questionado. Um dos grandes intelectuais na Índia, um homem chamado Dr. Ambedkar da casta dalit (intocáveis) foi um dos grandes opositores de Gandhi. Gandhi é na verdade uma pessoa cujas visões deviam ser olhadas com mais atenção e seriedade porque há muita falsa propaganda sobre quem era e o que defendia, sobretudo acerca do sistema de castas e as mulheres. Mas não só ele. Quando escrevi O Deus das Pequenas Coisas, a esquerda em Kerala ficou muito zangada com o livro, porque este questionava o facto de os partidos comunistas não fazerem nada para acabar com as castas. A questão é que os grandes intelectuais, escritores e artistas na Índia, mesmo os de esquerda, não olham para isso, agem como se o problema não existisse (é como escrever sobre o período do apartheid na África do Sul e esquecer que existiu apartheid), quando na verdade o sistema de castas é o motor da Índia moderna.
O tipo e a quantidade de violência que existe na Índia é completamente impensável. mas está tudo encoberto por esta capa da democracia-bollywood-críquete-gandhi-yoga.
Nesses vinte anos viu a morte e a violência de perto?
Não presenciei, mas conheci muita gente que… Quando estive na floresta, conheci gente como a camarada Revathy, [personagem de O Ministério da Felicidade Suprema], mãe verdadeira da Menina Jebben, a segunda, que foi violada por seis homens e torturada e mais tarde morta. O tipo e a quantidade de violência que existe na Índia é completamente impensável. E está tudo encoberto por esta capa da democracia-bollywood-críquete-gandhi-yoga. Mas em Caxemira foram mortas cerca de 60 mil pessoas, muitos milhares foram torturadas, há 10 mil desaparecidos. E as pessoas não sabem de nada. É a mais densa ocupação militar no mundo.
E sente que tem que denunciar isso?
Não foi esse o meu principal objetivo com este livro. Se quisesse denunciar, teria escrito um ensaio, mas precisava de perceber. O mundo todo está envolvido em coisas destas…
A Índia de O Ministério da Felicidade Suprema é também um espelho do mundo?
Sim, é um microcosmos do mundo e da evolução da civilização. A Índia fez testes nucleares, abriu os seus mercados, começou a chamar a si própria de superpotência. Outras superpotências têm colónias, a Índia não tem, por isso coloniza-se a si própria. É também sobre a história do colonialismo, este livro. Mas não é só sobre opressores e oprimidos, é sobretudo acerca de como essa opressão funciona, como é que os oprimidos a vivem e a veem, como é que se vive isso, como é o ar que se respira, como é a atmosfera.
O que vai acontecer a este planeta se continuarmos a viver assim? Quando estou otimista penso que é bom que todo este horror venha à superfície, para que todos vejam e reajam. Quando estou pessimista, penso que antes de reagirmos o mundo já se afundou.
Grande parte parte da ação deste seu livro passa-se num cemitério, onde vivem as suas personagens. Disse numa entrevista que vivemos todos num cemitério. Porquê?
Quando falei nisso, estava a pensar nas alterações climáticas, no facto de estarmos a viver num planeta moribundo e não reconhecermos isso. E isso não vai mudar a não ser que consigamos construir uma casa de hóspedes, como fez Anjum, e consigamos pensar de forma diferente. O que vai acontecer a este planeta se continuarmos a viver assim? Quando estou otimista penso que é bom que todo este absoluto horror e esta estupidez venham à superfície, para que todos vejam e reajam. Quando estou pessimista, penso que antes de reagirmos o mundo já se afundou.
(...)
Quando escreve, pensa se deve ou não escrever. Tem medo?
Tenho muitos medos. Quando estava a escrever O Ministério da Felicidade Suprema disse para mim própria: escreve-o como queres e depois guarda-o numa gaveta, mas depois de escrito o ego de escritora não permite que se mantenha guardado numa gaveta. Mas, até agora, tem sido tranquilo. Não tem havido problemas.
 (...)
A Índia é um país que vive em vários séculos simultaneamente. Estamos no século XXI e no século IX e por vezes em cinco minutos pode passar-se de um para outro.
A forma como as mulheres são tratadas também. Considera-se feminista?
Claro. A Índia é um país que vive em vários séculos simultaneamente. Estamos no século XXI e no século IX e por vezes em cinco minutos pode passar-se de um para outro. Pode ter uma mulher como eu, que é completamente independente, que diz o que quer e que vive como quer – eu sou talvez das mulheres mais livres em todo o mundo e tenho um lugar na Índia – mas também tem mulheres a matar os bebés do sexo feminino quando nascem e a destruir os fetos quando sabem que são meninas e a alimentar as filhas menos do que alimentam os filhos, tem mulheres que são oprimidas das mais abjetas formas e isto acontece tudo na mesma sociedade.
E porque é que acontece? Tem a ver com a condição sócioeconómica?
O condicionamento cultural é determinante. Todo o mundo tem conhecimento das violações e das manifestações contra as violações. Mas, mais uma vez, é muito complicado porque a violação foi (tem sido) tradicionalmente usada como arma feudal. Um homem de uma casta superior pode violar uma mulher dalit, tirá-la de casa, fazer o que quiser com ela (o exército em Caxemira também a usa como arma), mas há agora também uma raiva contra as mulheres modernas, que percebem que existe outra maneira de viver e se recusam a viver de acordo com as regras tradicionais e também ela é brutalizada. A mulher é brutalizada por ser tradicional e brutalizada por ser moderna e por tentar mudar as regras e recusar esse controlo hegemónico dos homens. Hoje, na Índia, é mais seguro ser vaca do que ser mulher porque as vacas são protegidas e as mulheres são atacadas.

Arundhaty Roy
Apesar disso, e de ter sido acusada de anti nacionalista, escolheu viver sempre no seu país.
Porque não o vejo como um país, mas como um lugar onde vivo e onde estão as pessoas que conheço e que amo. Continuo a perguntar: o que é um país? Até há 70 anos Índia, Paquistão e Bangladesh eram um país, agora apontam mísseis uns aos outros. Na verdade, mesmo nessa altura não éramos um país. Os ingleses desenharam um mapa e havia 500 reinos separados dentro dele. A Partição criou violência, mas a assimilação também. Caxemira tem a ver com isso. O que está a passar-se no norte da Índia é isso, assimilação forçada. Por isso, o que é um país? Não percebo, não consigo ficar entusiasmada. Percebo do ponto de vista administrativo, mas não do ponto de vista da emoção, do país como algo sagrado, que pode levar mesmo à morte de quem falar contra ele.
Porque vive lá, então? Não terá, no fundo, a ver com uma ligação emocional ao seu lugar?
Vivo lá como uma árvore, se tiver que ser transplantada serei, as minhas folhas vão cair, envolverá trauma, mas talvez voltem a crescer.
O que teme mais?
Neste momento, que todos os dias, no sítio onde vivo, esteja a ser injetado veneno no sangue das pessoas comuns e para o qual não há um antídoto simples. Estão a criar-se as condições atmosféricas para algo terrível. E por causa desse horrível nacionalismo cultural e religioso, que está a dominar a sociedade indiana, milhões de pessoas estão ser empurradas para a destituição absoluta de tudo. Caminhamos para uma situação assustadora.
A situação que se vive na Índia é um manifesto do ódio com subcamadas e subcamadas e subcamadas, sobre quem deve ser odiado e quanto.
Quem são os que estão em situação mais frágil?
Os muçulmanos, que estão a ser destituídos de todos os direitos, os indígenas que estão a ser expulsos das suas terras por causa da exploração mineira, as mulheres, que são as mais frágeis entre os frágeis, os dalit que levam milhares de anos de opressão. A situação que se vive na Índia é um manifesto do ódio com subcamadas e subcamadas e subcamadas, sobre quem deve ser odiado e quanto.
A religião é a raiz destes males?
Não é só a religião. É sobretudo o impulso hegemónico. Por isso é que o santo de O Ministério da Felicidade Suprema – Hazrat Sarmad Shaheed – é um santo que resistiu a todas as hegemonias. O judeu arménio homossexual que chegou a Deli, tornou-se islâmico, cortaram-lhe a cabeça e mesmo assim continuou a dizer poesia. Resistiu a todas as formas de hegemonia.
Ganhou o Booker Prize há 20 anos. O que significou na altura e o que significaria voltar a ganhá-lo?
Deu-me muita proteção. A visibilidade funciona em dois sentidos, é-se mais atacado, mas também se está mais protegido. Não era só uma pessoa anónima a quem podiam fazer o que quisessem e isso foi importante. E o facto de o livro ter ganho o Booker Prize deu-me independência financeira, o que também é bom – não veio de uma herança, veio do meu trabalho e isso significa muito.
E se o ganhar novamente?
Fico contente.
Quanto tempo teremos que esperar por um novo livro?
Não sei, não sei.

sábado, setembro 16, 2017

SER MULHER

O QUE PENSAM OS FILÓSOFOS DAS MULHERES

 “Ser-se mulher é algo de tão peculiar, de tão misto, de tão complexo, que nenhum predicado pode por si só exprimi-lo, e os muitos predicados, caso os quiséssemos utilizar, contradir-se-iam mutuamente de tal maneira que só uma mulher seria capaz de suportar tal coisa; aliás, pior ainda, seria capaz de encontrar prazer nisso.”...
  SÖREN KIERKEGAARD (1813-1855)



Por  causa destas e de outras considerações sobre as mulheres eu acho  que nenhum homem por mais erudito e culto ou bem intencionado que seja pode ou deve manifestar-se - ensinar o que quer que seja - sobre o que é a Mulher e a sua natureza...embora possam existir homens sábios que sentem e percebem a mulher.

Quanto a mim, nenhum homem deveria ser autorizado legalmente...a falar daquilo que não é nem conhece por experiência própria. Dai eu considerar  que é perniciosa toda a abordagem que o homem faz teoricamente da mulher pela simples razão de que não ele não nasceu mulher  e projecta toda a carga secular subjectiva/objectiva,  psíquica e religiosa que traz consigo e viveu como macho  dentro do Sistema e que o afecta acerca da mãe e da mulher tal como a sua ideia  do Pecado ou da sua leitura da Génese.

Há séculos que o Olhar do Homem sobre a condição e o saber da mulher é expandido de forma alienante para a própria mulher não só por a mitificar, seja inferiorizando-a na sociedade e a elevar aos céus e no altar, seja por a condenar aos infernos por ser pecadora promiscua ou infiel.
Não dou crédito a nenhum homem que se pronuncie seja a que nível for sobre uma Mulher. Sejam eles místicos sejam teólogos sejam os mais simples e honestos.
O homem, qualquer homem  tem - para não dizer todos - que aprender sobre e com a Mulher  mas não pode nem deve em consciência e se for honesto propor-se falar para as mulheres sobre elas  em circunstância alguma. É tempo de as mulheres falarem de si. Não ouvir os homens! Não seguir mestres nem guias nem facilitadores. Na verdade eles estão tão habituados a viver à conta das mulheres que não resistem à manipulação sexual e religiosa e não conseguem perder as fieis seguidoras que são as mulheres em todos os sectores do conhecimento "espiritual" e não só pois  no fundo querem continuar a manter o controlo das mulheres servindo-se delas de todas as formas como o fazem os políticos e os religiosos.  

Só a mulher pode e deverá falar de si mesma! Apesar de a própria mulher não estar  ainda em contacto com a sua essência primeira, ela devia primeiro recordar-se QUEM ERA  e ir ao fundo da sua psique.  Portanto o que elas ouvem dos homens e dos mestres e lhe ensinam sobre si nas escolas é precisamente tudo o que a alienou da sua natureza profunda, que contribuiu para a sua manipulação e ignorância de si e assim qualquer tentativa de mestres e de guias falarem da Mulher e da sua sexualidade é falseada e não é mais do que o homem sempre fez com a mulher: servir-se da sua ignorância e manipulá-la para o seu serviço seja qual for o seu interesse imediato. Assim o olhar do homem, por melhor intencionado que seja,  sobre a condição e saber da MULHER é quase sempre o olhar mais pernicioso e nefasto porque melhor pode afastar a mulher de si mesma e da sua essência, enganando-a com ideias e conceitos que a condicionam a ser esse travesti a que eles deram forma e que os gays copiam.
As mulheres, essas mulheres que foram as descendentes das nossas mães e tias  foram afastadas dos valores do feminino em nome da emancipação e da liberdade sexual, mas esquecemos que sem esses valores a sociedade regride e adoece...e por isso como diz no inicio o autor citado o mundo está em ruinas e digo eu à beira de uma guerra tremenda - a começar com a migração muçulmana que eu não posso nem por um minuto esquecer. O que a mulher feminista fez foi deitar fora com a água suja o bebé...
Precisamos de voltar a esses valores do verdadeiro feminino, sem esquecer que somos livres e para isso a mulher tem de estar consciente de si também ao nível do seu ser mais profundo. Que valores são esses pois?

"ESSES VALORES FEMININOS SÃO: O AMOR, O AFECTO, AS RELAÇÕES HUMANAS o contacto com a natureza e a vida. E as crianças, visto que a mulher também é mãe. Esses aspectos fundamentais do seu ser não os citei logo para evitar que a mulher que ler este texto suspeite da intenção camuflada de voltar a encerrá-la nos três famosos "K" Kinder, KUche, Kirche - crianças, cozinha e igreja."

E endosso as palavras de J. Guendher, em yuganaddha, The Tantric View of live:

"A consciência da mulher é diferente; ela já percebeu as coisas quando o homem ainda tateia na escuridão. A mulher percebe as circunstâncias que a cercam e as possibilidades a elas ligadas, algo que um homem costuma ser incapaz. Por isso, o mundo da mulher parece-lhe pertencer ao infinito, para fora do tempo e para o transcendente, pode fornecer as indicações e os impulsos mais válidos. Essa transcendência é a sabedoria, e esta supera o saber intelectual...A mulher e tudo a ela associado parecem bem estranhos ao macho e,, no entanto, isso faz parte de seu universo mais íntimo, à espera de se realizar por ele" (p.172)

rosa Leonor pedro 

PS: Eu sei que me repito infinitamente, mas esta é uma lição árdua de aprender...

sexta-feira, setembro 15, 2017

O HOMEM "CRIA" A MULHER...



UM OLHAR SOBRE A DOMINAÇÃO DO MASCULINO

"...pertencer a um tempo e a uma cultura significa possuir uma herança, constituída por um conjunto de recursos de interpretação, com a qual nos orientamos como humanos. Contudo, tal interpretação deve configurar‑se como um comportamento reflexivo perante a herança cultural e não representar uma aceitação passiva dela. Ou seja, “ter sentido histórico” obriga a reconhecer o legado cultural que recebemos, mas, obriga, igualmente, a re‑avaliá‑lo e a re‑interpretá‑lo, de tal forma que possamos re‑configurar, com maior equidade, a herança cultural que vamos deixar.

No caso das representações do feminino, o trabalho de interpretação do legado cultural é particularmente delicado porque tem de ser feito ao arrepio daquilo que mais profundamente nos constitui, tendo de começar por uma desconstrução e por uma hermenêutica da suspeita, uma vez que as representações do feminino mais enraizadas advêm de uma concepção antropológica assimétrica, que toma o masculino como padrão e o feminino como derivado.

Nesse contexto desconstrutor e de suspeição, um olhar reflexivo sobre a tradição ocidental deve deixar‑se orientar pela ideia de que a dominação masculina não foi universal e pacificamente aceite, mas apenas assumiu o aspecto de parecer ter sido absolutamente aceite. Ou seja, re‑significar a nossa História comum, de homens e de mulheres, obriga a procurar os ruídos à aceitação universal da dominação masculina que ocorreram e trazer à luz os sinais da ambiguidade e da complexidade nas relações de poder entre os sexos, que todas as épocas testemunham. Sem a desocultação desses acontecimentos não será possível fazer um novo caminho de entendimento do nosso modo de ser e de estar e, nós, mulheres, estaremos desmunidas de figuras femininas que materializem a possibilidade de nos olharmos como seres humanos integrais. Além disso, se aceitarmos passivamente a ideia de que a dominação masculina foi sempre completamente aceite, estamos a fazer uma nova discriminação em relação à nossa herança cultural, porque não fazemos justiça a quem se insurgiu contra a dominação do masculino, e estamos, por nossa vez, a invisibilizar o seu esforço, reiterando o legado cultural que o conseguiu escamotear.
Tal interpretação reflexiva da tradição ocidental vai mostrar‑nos um modo de pensar as mulheres e o feminino, a que se poderá chamar pensar canónico − que dá das mulheres e do feminino uma visão negativa e subalterna −, mas também uma contracorrente de pensamento ou ruídos marginais ao pensar dominante que evidenciam o facto de a aceitação da dominância do masculino nem sempre ter sido pacífica."


FERNANDA HENRIQUES
(Docente na Universidade de Évora)

MULHERES QUE PENSAM...



KATE MILLETT  (1934-2017)


"A imagem da mulher tal como a conhecemos é uma imagem criada pelos homens e moldada para servir as suas necessidades"

"O conceito de amor romântico possibilita um meio de manipulação emocional que o macho é livre de explorar, dado que o amor é a única circunstância em que a fêmea é (ideologicamente) perdoada por ter actividade sexual."...



KATE MILLETT

terça-feira, setembro 12, 2017

A DIVISÃO DO HOMEM...




O grande Mistério do Homem é a Mulher...

Ao sonegar a mulher o homem  não a conhece, e não a conhecendo a Ela nem A reconhecendo como Deusa, não se conhece a si mesmo, nega o seu feminino, pois é a Mulher a grande reveladora dos Mistérios...é Ela que une o Céu e a Terra; assim, sem a mulher, o homem é um ser puramente desnaturado, violento e vingativo. Ao estar incompleto ele divide a mulher também, em uma mulher "mãe", a santa e obediente ao marido (Eva) e uma mulher fatal, sexual, a prostituta ...daí o Caos do Mundo que ele criou...na sua face deus-pai, banindo e sacrificando a Mulher e a Mãe da Humanidade.
Sem acesso ao Mistério, que é Mãe, ele não tem acesso ao seu Feminino e ao Universo composto dos dois lados os polos opostos da Manifestação.
Mas o nosso maior drama é que a mulher não sabe de si nessa proporção de grandezas, a sua porque foi  diminuída e se tornou a  ínfima espécie, pelo Homem...ao dominar e destruir a Natureza e a Vida e a Mulher...escravizando-a como ser e prostituindo-a como mulher - dividindo-a em duas -  e tornando-a infame aos olhos do Homem.

AS mulheres acreditam nas religiões e num deus que sempre as ostracizou e condenou como pecadoras e culpadas; foram mortas e perseguidas como bruxas e queimadas vivas em fogueiras da Inquisição - são ainda apedrejadas, violadas e mortas...e em pleno sec. XXI continuam a seguir as mesmas religiões e credos que as castigaram ao longo dos milénios...
As mulheres são mesmo "servas do Senhor"...nunca se ergueram por si, sempre se submeteram a Lei de Deus e do Homem.

rosaleonorpedro

sexta-feira, setembro 08, 2017

O AMOR DO CORAÇÃO





"O Conhecimento dos poderes do coração é indispensável à prática do Caminho do Meio pois este é só se pode praticar através da preponderância desses poderes e da sua influência. Esta via é um balanço constante entre o egoísmo do Eu e o altruísmo do Si."

 ... "Só o coração pode realizar o prodígio do equilíbrio, pela sua posição mediadora entre o temporal e o intemporal, entre o organismo mortal e o seu arquétipo imortal. A alternância do seu movimento (dilatação-contracção) é a imagem perfeita desse balançar entre os dois poderes, do qual o pessoal tem de se tornar consciente, para ser transcendido pelo impessoal".


de ISHA SCHWALLER DE LUBICZ

"O Amor do coração foi progressivamente abafado por quatro mil anos de dominação dos homens, que limitaram a participação das mulheres à família e ao lar. Resultou disto uma repressão dos valores femininos no Homem, e com eles o próprio Amor. A nossa cultura masculinista esta na raiz do desenvolvimento extremo das qualidades intelectuais mais particularmente da razão, que leva ao domínio absoluto da ciência e da tecnologia, e limita a educação ao puro intelecto. Os valores do ...coração e do espírito são desprezados e relegados à religião. Resulta disto um abismo entre razão e o coração. E chegamos ao extremo das aplicações frias da ciência através da tecnologia, à fabricação descontrolada de armas e ao seu uso na matança de seres indefesos no terrorismo ilegal e nas guerras legais, tanto faz. As empresas usam as tecnologias tanto a serviço de valores construtivos ou destrutivos desde que se obtenha o devido lucro."


Pierre Weil

ELA AGORA












ELA - AGORA

Não menos que Helena bela
Ela senta-se à janela
Porém não à janela mas às janelas...
Do computador
Que abrem portas que são redes
Páginas que são sítios
Avenidas que são ermos
Que agora percorremos
Já sem voz
Cada vez mais sós
Tanta profusão
Atira-nos
Para um lixo que nos deita fora



ana hatherly